quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Bela e a Fera




Encontraram-se, à meia noite, e pelas circunstâncias mais improváveis se viram. O Colecionador de Vozes a Colecionadora de Olhos.

Os olhos cinzentos do Colecionador brilhavam como o fundo de um abismo " Esses olhos amaldiçoados contemplam o Inferno, pobre coitado com olhos de demônio", pensou a Colecionadora. A sua voz era doce, suave, descia como seda, ele pensou, nada era mais belo do que destroçar algo tão singelo, tão único quanto uma frágil voz " Que pescoço lindo, a lingua da minha navalha gostaria de te lamber e experimentar o sabor da tua pele, temperado com o cheiro do teu sangue e um gorgolejar desesperado", sussurrou o Colecionador.

Quantas noites a Colecionadora o procurou? No fundo da córnea a Entropia Perfeita. Olhos assim sempre a apaixonaram, mas perdiam toda a sua fascinação com o tempo, nem por isso ela deixava estes olhares preciosos se livrarem da posse dela; arrancava-lhes da órbita com uma precisão cirúrgica incomparável, imortalizava a carne em potes de cristal, a sua coleção era maravilhosa, todas as cores e várias nascionalidades; ela gostava de pensar que aqueles olhos emolduravam a Morte, aqueles que tinham a pupila em midríase encararam por último o Abismo, o Inferno é para a Colecionadora um lugar escuro, gelado, sem luz, sem gravidade, um vazio- Abençoados eram os olhos dos que enxergavam a estrada do Inferno, o horror e o sentido da vida se afirmavam em rutilante agonia-; Pupilas em miose emolduravam o própio Paraíso, demostrava, por isso, um respeito velado por estes, que eram poucos e especiais, no entanto o Inferno sempre a fascinou, o horror estampado é o móbile da plenitude no seu própio temor, que serve para eliminar o medo da morte e nutrir o desejo pela vida. Começava a caçada.

O Colecionador a procurou, entre covas, covas abertas e fechadas novamente, várias faces, várias bocas, muitas gargantas. Onde está a Voz Perfeita? Muitas vezes ele a achou, muitas vezes ele a perdeu. A voz perfeita se afogava- Que lindo!- em sangue e desespero. Mais está nova presa parecia diferente, o Sopro( como ele chamava a expressão da alma no tom único de cada voz, que era como ele escolhia as suas vítimas) parecia o eco além do tártaro, uma canção de embalar Hades. Fria, límpida, clara, um vítreo cristalino enigma de rasga-mortalha, oculto desejar e mais do que isso: perigo. O Desejo é a retificação da falta, afinal deseja-se apenas oque não tem, decorre do desejo realizado o tédio, o vazio da existência. Ele sentia, ele a queria, o tédio foi esquecido sem saudade ou despedidas. Começava a caçar.

O primeiro encontro: Uma troca de olhares, sorrisos velados, esquiva e uma dança sutil, de intensões e ameaças, alteravam-se os papéis, ora presa ora caça. Mas fascinado foi o fascinador, fascinando-a por sua vez com olhos sinceros, como o abismo que a engolia.

E apartir do primeiro beijo: A realidade perdeu a sua gravidade, os dois flutuaram em Silêncio, o vazio emoldurado por suspiros, por pedidos e promessas. Gemidos e amor.

A navalha com cabo de onix, o paradigma da sua Arte, o Degolamento, foi esquecido pelo Colecionador de Vozes. “ Não calarei mais a sua frágil voz”. A noite se passou, durmiram, embalados na calorosa presença, nos sonhos e nos braços um do outro.

A Colecionadora de Olhos não se importava mais com a sua coleção, eles que ardessem em ciúmes, olhos envidraçados, apenas aqueles olhos de Fera do seu amado Colecionador seriam dignos de poder enxergar algo que não fosse ela e ainda viver. Não lhe roubaria a visão, por mais que quisesse. O veneno que iria assassinar a sua presa, que seria destilada com lasciva foi deixada de lado, esquecida no fundo da bolsa, na sala, entre as roupas amassadas, as únicas testemunhas da Entropia Perfeita que a Colecionadora tanto procurou.

Ele a ouviu dizer, enquanto sua amada Bela, nos seus braços, dormia: Te amo, Fera.

Ele respondeu: Parece que não é só tu que habita os meus sonhos, Bela, parece que eu habito também os teus.

- "E a Fera olhou na face da Bela...e a Bela estava em suas mãos; e, a partir desse dia, a Fera estava condenada à morte."


“Engraçado!” Ele pensava sobre o conto de “ A Bela e a Fera” quando era mais jovem, que a Fera era uma personagem tola em despedir-se da agradável vida de um predador pela paixão de algo tão abstrato quanto o amor pela Bela, irracionável e inútil inebriante destilado drink de falaceas e hipocrisia! E do mais irônico sorriso ele tirou da respiração da fumaça de um cigarro: "Entendo-te, agora, Fera, tolo ser, devo também está condenado à morte tanto quanto tu..."

Eram amantes, a Bela e a Fera um do outro.

E eles se amaram, compartilharam da fascinação de alternada, alternavam papéis, ora Fera, ora Bela. Apaixonavam-se na completude um do outro, sempre assim, um do outro, era impensável existir individualmente. A dor da separação seria tão grande que supor uma vida exilados simplesmente parecia a maior das torturas, então os dois Colecionadores fizeram um plano para negar lágrimas ao Destino pela separação inevitável. À meia noite, passados 5 anos desde que se encontraram, apartir da noite onde o destino de ambos foi selado, descidiram fazer o sacrifício final, a maior prova de amor. Consumir um ao outro, morrer pela mão do ser amado e não sofrer a solidão de uma vida sem sentido, uma alma pela metade, almas gêmeas como são nasceram e morrerão ao mesmo tempo.

À meia noite, passados 5 anos desde que se viram, a maior prova de amor foi cobrada.

-Acorde, Bela. Disse-lhe com amabilidade o Colecionador.

- Ola, Fera... Respondeu-lhe abrindo os olhos a Colecionadora.

-Você me condenou à morte, Bela, sabes disso não sabes? O Colecionador perguntou, olhando-a com um triste sorriso

-Eu sei... Vai doer muito? Ela perguntou.

-Quase nada... Ele mentiu.

Eles se beijaram. A Fera sentiu um gosto férreo na boca, era sangue adocicado por veneno. A navalha Degolamento vibrava de felicidade, enquanto a cama se banhava em sangue a Bela afogava e fenecia.
O Colecionador começou a arquejar, o seu corpo queimava, ao mesmo tempo de frio e calor, a dose letal agia no seu corpo. Um frasco de veneno escorregou da mão que jazia branca sobre um pano de manchado escarlate, a alma da Bela escorria. Enquanto morria o Colecionador se lembrava do pedido final: ”Fique com os olhos abertos, Fera, olhe-me ternamente como sempre fez”.

E assim o fez. A dor era insuportável, mas ela não gritava, apenas sorria assistindo-o, decorando cada partícula da imagem, absorvendo o olhar do seu amado, sublimando no que havia de mais lindo no mundo, os únicos olhos que ela jamais iria possuir, que no entanto sempre foram dela.

E eles morreram de mãos dadas. Morreram. Juntos.

Um bilhete foi achado sobre a mesa. " Arranque o ar dos meus pulmões, Colecionador de Vozes. Pereça comigo, tenho medo do frio, da solidão, do vazio; preciso dos seus olhos de demônio para guiar os meus passos através dos caminhos do Inferno, preciso do seu corpo para me esquentar e do seu carinho para fingir que está tudo bem. Te amo.

Da sempre sua, Colecionadora de Olhos."