terça-feira, 3 de agosto de 2010

Fumaça III por Patrícia Clemente


Você, tabaco, amante compreensivo,

Completa o tempo, se ele se demora,

Conserva o gosto, se ele vem, lascivo,

Consola o corpo, se ele vai-se embora.

Te satisfaz deixar-me insatisfeita

A desejar-te, tola, em toda hora,

Na carne que te traga e que suspeita

Que ao possuir-te a vida joga fora

Prazer sublime, sórdida maleita,

Sutil perigo, pão que me devora,

Amor fatal de quem já não me privo.

Não te desfaço, sou por ti desfeita,

Hostil amigo desse ser cativo,

Amável matador de quem te adora.



Ai adorado,

Como um deus te faço, tua vontade a minha.

Como um deus te faço, um mundo pra mim.

Como um deus te faço:

Sabes,

Melhor que eu mesma,

O que está em mim.

Como um deus te faço:

Sabes,

Melhor que eu mesma,

O melhor pra mim.


Não quero o mundo tal como eu desejo:

Se eu ouço um grito eu sonho um mundo negro

E vou tramando horrores em segredo,

A dor excita a minha alma impura.

Na intimidade sei: sou obsessiva:

Meu coração me diz: sê compassiva

Mas só na lágrima é que fico viva,

Desesperada por novas torturas

Na intimidade sei que sou maldita:

Me dá prazer ver toda carne aflita,

Correr o sangue pela pele nua.

Minha bondade é pura hipocrisia:

A dor preenche, o amor me faz vazia.

Dou ao diabo o deus que me fez crua.



Há putas para todos os formatos,

Há uma puta para cada serventia,

Há putas caras, putas sem sapatos

E eu, que sou a puta da poesia.

Faço comércio de emoções baratas

Em versos bem rimados e escandidos,

Abro meu sexo em rimas não cognatas,

Quadris por decassílabos movidos,

Ponho por preço aprovação abstrata,

Aplaudam!, mesmo quando imerecido.

Há putas prenhas, putas menstruadas,

Putas casadas fazem sexo com o marido,

Algumas castas, outras afetadas:

Eu sou a puta do meu coração ferido.

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