sexta-feira, 30 de abril de 2010

Espectador e Observador


Ele acordou e olhou para sujo teto do própio quarto, como se fosse o último olhar e desejou que fosse mesmo o último olhar, as suas juntas estralaram com o movimento repentino do despertar. Lá fora os pássaros voaram, os pombos bateram as suas asas, o condomínio se encheu com o som do bater de palmas, e os pássaros alçaram assustados vôos com a sinfonia instantânea de juntas trincando que explodiu por uma microssonora dimensão sentida apenas pelos animais com a desenvolvida super-audição.

E já ele se levantou, pesadamente depois de tentar cair novamente em um estado de vigília, e as janelas translúcidas já desenhavam movimentos e ondulações de luz do sol da tarde, que se alteravam em novos traços pela movimentação das nuvens de tamanhos continentais que tentavam capturar o sol apenas para si, tornando aquela tarde nublada.

Mas o lacônico rapaz não pode apreciar as sutilezas deste entre-mundo subjectivo, os seus sentidos estavam inundados de areia e ferrugem pelo tardio despertar, tudo mais que não as própias dores musculares, os tendões entrevados e os contentes bocejos apareciam aos sentidos embassado.
"Uma pena", pensou o rapaz," que esta letargia mental não se estenda pelo resto do dia, ou pelo resto da vida, apenas para privar-me da aguniante morbidez de existir". Poderias estranhar o pessimismo deste jovem, poderias até mesmo dar vários motivos positivos para dizer-lhe " sorria", poderias construir uma coroboração puramente indutiva de que a mocidade é um momento dourado do estrelado e mais tarde eclipsado da vida, pois ter esta visão tão depressiva, ainda tão próximo do despertar! Realmente, poderia dizer que é contraditório. Ou, se você compartilhasse da melancolia, poderias compreendes o pesado fardo da vida e reconhecer as semelhanças e experimentar em primeira mão toda esta réstia pantanosa do que é ser ser. Mas está dor que suga toda a energia de viver do rapaz, assim como todas as dores que consomem muito mais que o estado de espírito, os pensamentos negativos e as ações passivo-agressivas não se resumem, muito menos encerra apenas em um simples estado de espírito.

A dor não era uma presença cancerígina, como podes vir a crêr, mais sim uma ausência constante, como um buraco negro, que não suportando a pressão massiva, cai para dentro de si, distorcendo o espaço e o tempo e sugando até mesmo a luz.


Não sinta pena do rapaz, não precisas nem mesmo dar-se ao trabalho de tentar ajuda-lo, acredite, quando digo, que não existe nada que você, ou mesmo o ele própio possa fazer, pois não existe nenhuma poção mágica ou parafernalha científica que possa restaurar uma alma perdida. O rapaz, na verdade ainda vive como vocês: anda, sorri, come, conversa e até se presta a outras atividades mais subjectivas. Se você o visse na rua e conversasse com o mesmo, perguntar-se-ia: " Será que ele está realmente assim tão alieanado? Parece-me bem normal!" Só que falo-te, novamente, como outrora, ele se resume a uma ausência, a linguagem lhe impõe um sentido que dar-se-ia como faltante, uma existência vazia.

Creio, meus caros, que caso se prestassem a conversar com ele e compreendo o que lhes digo dirias que ele parece mais uma casca vazia e o que o ocupa é uma memória fragmentada, um ergo proxy( eu substituto) com data de validade e que quando menos esperares, toda essa carapaça irá se fragmentar, cair e se partir em micropartículas tão minimamente ínfimas que escorreriam por entre os átomos e sumiriam de vez, em dimensões mínimas, tais do tamanho possivelmente mensurável que a valência existencial seria irrisória.

Portanto, este rapaz de feições serenas que se espreguiça, andando lentamente, enquanto pede a um deus que não pode ouvir, que consiga suportar existir por apenas mais um dia, aguente e resista para que não desintegre o própio ego, por fim, sendo uma existência de valência desprezível.

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