sexta-feira, 12 de março de 2010

Abyssus abyssum invocat



Tenho o meu espírito nas mãos, que pulverizo, escorre como pó, assopro para o infinito, o esquecimento, gelado e sem sentido, deixe-me meditar e ser apenas um ponto de ciência, um ponto de lembrança para que eu esqueça de mim.
A chuva tem gosto de sangue nesses meus últimos dias... Permitam, olhos meus, como as janelas da minha alma, abrirem-se para que entre a Noite. Esta Noite, iluminada pela ausência de um único foco de luz, pois é nestas Noites que as sombras de si escondem-se, ficam camufladas nas trevas dos bosques da mente, fantasiam-se de monstros, de lobos e outras bestas mais, mas são estas fantasiosas florestas ébrias do torvelinho de horrores, que cercado e contido, armei uma ermida, singela e plácida, feita da minha energia mais serena, paz que outrora era miasma, luz concentrada que outrora era treva, nesta ermida fulgura a minha alma...
Mas acho que me perdi, achei um bestial grupo de seres umbralinos travestidos de amigos, pensei serem amigos, enganado os segui, dividi os meus sonhos e fragmentei os meus sentimentos... ludibriado pelo medo do escuro, denso escuro, costurado por linhas de solidão com agulhas de cauterizada desesperança, me entreguei e fui rasgado... agora pereço, levaram tudo o que fui, roubaram-me de mim, mas ainda esperançoso, escondi no fundo do coração a tristeza, para que não a levassem consigo, traidores, porém ainda insisto em ver nos seus olhos humanamente falsos o reflexo do encarecido amigo que tanto amei... por isso guardei tristeza, guardei-a, bem guardei e somente a tristeza fora deixada, esqueci-me que é no vazio do corpo dilacerado que a tristeza cresce, engorda e se farta, assim te conheci, Therion, assim tornei-me triste e me consumi no vazio de mim. Sou o Abismo, Therion, Abismo invoca Abismo, invoca a queda e chama às sombras, chama.